Gestão

Gestão financeira para clínicas: como organizar sem virar contador

Como organizar o financeiro da clínica: separar contas, fluxo de caixa, comissões, glosas e inadimplência. Passo a passo para começar esta semana.

Thiago Rosa

CEO e fundador da Santé Sistemas

Resposta rápida:

Gestão financeira de clínica é controlar quatro coisas: o que entra, o que sai, o que está para receber e o que está para pagar. Parece simples, mas na clínica tem três complicações que outros negócios não têm: comissão de profissional, glosa de convênio e paciente que paga parcelado em tratamento longo.

O primeiro passo não é comprar sistema. É separar a conta da clínica da conta pessoal e definir o seu pró-labore, que é o seu salário fixo como dono. Sem isso, nenhum número que você olhar depois vai ser verdade.

Por que o financeiro de clínica é diferente

Numa loja, o cliente entra, paga e vai embora. O dinheiro entrou, acabou.

Na clínica quase nada é assim. O tratamento de ortodontia dura dois anos e é cobrado em 24 vezes. O convênio paga 60 dias depois e às vezes corta parte do valor. O profissional que atendeu tem comissão sobre o que foi feito, não sobre o que foi recebido. E o paciente pode sumir no meio do tratamento com metade pago.

Isso cria uma situação que confunde muito dono de clínica: a agenda cheia e a conta no vermelho ao mesmo tempo. Você atendeu, o serviço foi prestado, mas o dinheiro está espalhado entre convênio que não pagou, parcela que vence mês que vem e paciente que sumiu.

O primeiro passo: separar as contas

Esse é o erro mais comum e o mais caro. O dono usa a conta da clínica para pagar a escola do filho, e a conta pessoal para comprar material quando o dinheiro da clínica acabou.

Enquanto isso existir, você não sabe se a clínica dá lucro. Pode estar dando prejuízo e sendo sustentada pelo seu dinheiro sem que você perceba.

Três coisas para arrumar isso:

Conta bancária separada. Uma para a clínica, outra sua. Sem exceção, nem para pagamento pequeno.

Pró-labore definido. Pró-labore é o salário do dono. Escolha um valor fixo, compatível com o que a clínica aguenta, e tire só isso todo mês. O que sobrar fica na clínica.

Se você não sabe quanto colocar de pró-labore, comece pelo que você gastaria contratando alguém para fazer o que você faz na parte administrativa. Depois ajuste conforme a clínica cresce.

Lucro é diferente de pró-labore. O que sobra depois de pagar tudo, incluindo o seu pró-labore, é o lucro da clínica. Esse dinheiro serve para reserva, equipamento novo e crescimento. Não para gasto pessoal.

Os 5 números que importam de verdade

Dono de clínica costuma olhar só o saldo da conta. É o pior indicador possível, porque ele não diz nada sobre o futuro.

Estes cinco dizem:

1. Faturamento

Tudo que foi vendido no mês, mesmo o que ainda não foi recebido. Mede o tamanho da operação.

2. Recebimento

Tudo que efetivamente entrou na conta no mês. A diferença entre faturamento e recebimento é o seu dinheiro parado na rua.

3. Custo fixo

O que você paga todo mês independente de atender ou não: aluguel, salário, software, internet, contador. Saber esse número é o que permite responder "quantos pacientes preciso atender para não ter prejuízo".

4. Ticket médio

Faturamento dividido pelo número de pacientes atendidos. Se cai, ou você baixou preço ou está atendendo mais procedimento simples.

5. Inadimplência

Quanto do que venceu não foi pago. Acima de 5% já merece atenção. Acima de 10% tem processo quebrado em algum lugar.

Montando o fluxo de caixa

Fluxo de caixa é a previsão do dinheiro que entra e sai, dia a dia, nos próximos meses. É a ferramenta que evita o susto de descobrir na véspera que não tem como pagar o fornecedor.

Como montar, do jeito mais simples que funciona:

  1. Liste todo dinheiro que já está garantido para entrar, com a data: parcelas de tratamento, convênio a receber, boleto emitido
  2. Liste todo pagamento já assumido, com a data: aluguel, folha, imposto, fornecedor
  3. Coloque o saldo de hoje no começo
  4. Vá somando e subtraindo dia a dia

O que você quer enxergar é o dia em que o saldo fica negativo. Se ele existe e está a 40 dias, você tem 40 dias para resolver, o que é bem diferente de descobrir no dia.

Olhe pelo menos 90 dias à frente. Em clínica com tratamento longo, 180 dias é melhor.

Comissão sem briga no fim do mês

Comissão é a maior fonte de discussão em clínica com mais de um profissional. E quase sempre por falta de combinado claro em duas perguntas.

Sobre o que incide? Sobre o valor cheio do procedimento ou sobre o que sobrou depois do material? Um implante de mil reais com trezentos de material pode gerar comissão sobre mil ou sobre setecentos. A diferença é grande e precisa estar escrita.

Quando é paga? No procedimento feito ou no dinheiro recebido? Se você paga na hora do procedimento e o paciente parou de pagar na terceira parcela, a clínica perdeu duas vezes.

O caminho que gera menos atrito é pagar sobre o recebido, junto com a entrada do dinheiro. O profissional recebe um pouco depois, mas recebe sempre, e a clínica nunca paga por dinheiro que não entrou.

Deixe o combinado por escrito e mostre o cálculo. Comissão que chega como um valor único, sem detalhe de quais procedimentos entraram, é o que mais gera desconfiança na equipe.

Convênio, glosa e o dinheiro que some

Glosa é quando o convênio recusa pagar um procedimento, no todo ou em parte. O nome assusta, mas o problema é simples: você atendeu, mandou a conta e o convênio cortou.

Os motivos mais comuns são burocráticos, não clínicos. Falta de autorização prévia, código de procedimento errado, documento faltando, prazo de envio perdido.

O que muda o jogo:

Conferir antes de enviar. Cinco minutos revisando o lote evita 60 dias de discussão depois.

Registrar toda glosa. Anote o motivo de cada uma. Em dois meses você descobre que 70% delas são o mesmo erro, e aí dá para corrigir o processo.

Recorrer sempre. Boa parte das glosas é revertida quando contestada com a documentação certa. Muita clínica não recorre porque não tem o registro organizado.

Acompanhar o prazo. Convênio tem prazo para pagar e prazo para você contestar. Perder o segundo é abrir mão do dinheiro.

O paciente que não paga

Inadimplência em clínica raramente é má-fé. É esquecimento, cartão vencido, boleto que não chegou.

Por isso o que mais reduz não é cobrança dura, é lembrete antes do vencimento. Uma mensagem três dias antes resolve boa parte.

Uma régua que funciona:

  • 3 dias antes: lembrete cordial, com o valor e o link de pagamento
  • no dia: aviso de vencimento hoje
  • 3 dias depois: contato perguntando se houve algum problema
  • 15 dias depois: proposta de renegociação
  • 30 dias depois: decisão sobre suspender atendimento eletivo

Deixe a régua escrita e igual para todo mundo. Cobrança que depende do humor de quem está na recepção gera constrangimento e perde dinheiro.

Planilha ou sistema: quando trocar

Planilha funciona, e no começo é o certo. O problema é quando ela para de funcionar sem avisar.

PlanilhaSistema
Custozeromensalidade
Lançarmanual, toda vezvem do atendimento
Erro de digitaçãoacontece e ninguém vênão existe
Ligação com a agendanenhumaautomática
Comissãocalculada à mãocalculada sozinha
Fechamento do mêshorasminutos
Se o computador queimarperdeuestá em nuvem

Três sinais de que a planilha já não dá conta: você não sabe dizer quanto tem a receber sem abrir três arquivos, o fechamento do mês toma mais de meio dia, ou já aconteceu de pagar comissão errada.

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Perguntas frequentes

Qual a diferença entre faturamento e recebimento numa clínica?

Faturamento é tudo que foi vendido no período, mesmo que o pagamento venha depois. Recebimento é o dinheiro que efetivamente entrou na conta. Numa clínica com tratamento parcelado e convênio, a diferença entre os dois pode ser grande, e é ela que explica a clínica com agenda cheia e conta no vermelho.

Quanto devo tirar de pró-labore?

Um valor fixo que a clínica aguente pagar todo mês sem apertar o caixa. Uma referência prática é começar pelo que você pagaria a alguém contratado para fazer a parte administrativa que você faz hoje, e ajustar conforme a clínica cresce. O importante é que seja fixo e separado do lucro.

O que é glosa e como reduzir?

Glosa é quando o convênio recusa pagar um procedimento, no todo ou em parte. A maioria acontece por motivo burocrático, como falta de autorização prévia, código errado ou documento faltando. Conferir o lote antes de enviar, registrar o motivo de cada glosa e recorrer sempre são as três medidas que mais reduzem.

Comissão deve ser paga sobre o procedimento feito ou sobre o recebido?

Sobre o recebido gera menos problema. Se a comissão é paga no momento do procedimento e o paciente para de pagar no meio do tratamento, a clínica perde duas vezes: não recebe e já pagou a comissão. Pagando sobre o recebido, o profissional recebe um pouco depois mas recebe sempre.

Qual percentual de inadimplência é aceitável numa clínica?

Até 5% é considerado normal. Entre 5% e 10% pede atenção ao processo de cobrança. Acima de 10% costuma indicar problema estrutural, como falta de lembrete antes do vencimento, ausência de régua de cobrança definida ou política de parcelamento longa demais para o perfil dos pacientes.

Por quantos meses devo projetar o fluxo de caixa?

No mínimo 90 dias. Em clínica com tratamento longo, como ortodontia ou implante parcelado, 180 dias é mais seguro, porque é o prazo em que as parcelas e os repasses de convênio realmente se acomodam. O objetivo é enxergar com antecedência o dia em que o saldo ficaria negativo.

Vale a pena trocar a planilha por um sistema de gestão financeira?

Vale quando o custo do erro passa a ser maior que a mensalidade. Três sinais claros: você não consegue dizer quanto tem a receber sem abrir vários arquivos, o fechamento do mês toma mais de meio dia, ou já houve pagamento de comissão errado. Antes disso, planilha bem feita resolve.

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Por onde começar esta semana

Não tente arrumar tudo de uma vez. A ordem que funciona é esta:

Primeiro, separe as contas e defina o pró-labore. Sem isso o resto não tem base.

Depois, levante os cinco números do mês passado. Vai dar trabalho na primeira vez e vinte minutos nas seguintes.

Só então monte o fluxo de caixa dos próximos 90 dias. Com os números na mão, ele sai rápido.

Sistema entra quando esses três passos já estão de pé e o trabalho manual começar a custar mais caro que a mensalidade.

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