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Como fazer uma anamnese: o guia prático por especialidade

Aprenda a fazer uma anamnese completa: as 6 partes, perguntas por especialidade, erros comuns e o que a LGPD exige. Guia prático para clínicas.

Thiago Rosa

CEO e fundador da Santé Sistemas

Resposta rápida:

A anamnese é a conversa inicial com o paciente, quando você levanta o histórico de saúde dele antes de qualquer procedimento. Uma anamnese completa tem seis partes: identificação, queixa principal, história da queixa, histórico de saúde, histórico familiar e hábitos de vida.

Na prática funciona assim: você pergunta, o paciente responde, e tudo fica registrado e assinado. O registro protege o paciente de um atendimento errado e protege você de um processo. Ficha de papel cumpre a função, mas some, molha e ninguém acha na hora que precisa.

O que é anamnese, em português claro

Anamnese vem do grego e quer dizer "trazer de volta à memória". Na clínica, é você fazendo o paciente lembrar e contar tudo que importa sobre a saúde dele antes de você encostar nele.

Muita gente trata como burocracia de recepção, e aí perde o ponto. É nessa conversa que você descobre que aquela paciente que veio fazer preenchimento labial toma anticoagulante, ou que o paciente da extração é alérgico a anestésico com vasoconstritor. Essas duas informações mudam o procedimento inteiro, e você só fica sabendo se perguntar.

Duas palavras que aparecem muito e confundem:

Anamnese é a conversa e o registro dela. Prontuário é a pasta onde essa conversa e todo o resto do atendimento ficam guardados. A anamnese é a primeira coisa que entra no prontuário.

As 6 partes de uma anamnese completa

Essa estrutura vale para qualquer profissional da saúde. Muda o conteúdo das perguntas, não a ordem.

1. Identificação

Nome, data de nascimento, profissão, telefone, endereço. A profissão importa mais do que parece: professor que fala oito horas por dia tem desgaste dentário diferente, e quem trabalha em pé o dia todo tem queixa circulatória que muda a conduta em estética.

2. Queixa principal

O que trouxe a pessoa até você, nas palavras dela. Anote como ela falou, não como você traduziria. "Meu dente dói quando tomo água gelada" é mais útil que "sensibilidade dentária", porque guarda a informação de que a dor vem do frio.

3. História da queixa

Quando começou, como começou, se piorou, o que alivia, o que piora, se já tratou antes e com quem. Essa é a parte que a maioria pula, e é a que mais ajuda no diagnóstico.

4. Histórico de saúde

Doenças que a pessoa tem ou teve, cirurgias, alergias, medicamentos em uso. Pergunte de remédio natural e suplemento também, porque muita gente não considera isso "remédio" e deixa de contar.

5. Histórico familiar

Diabetes, pressão alta, problema cardíaco, câncer na família. Serve para você saber o que investigar com mais atenção.

6. Hábitos de vida

Fuma, bebe, pratica exercício, como está o sono, como anda a alimentação. Em odontologia entra também a higiene bucal, e em estética entra exposição ao sol e uso de ácidos.

As perguntas que não podem faltar, por especialidade

O tronco é o mesmo. O que muda são as perguntas que, se você esquecer, dão problema de verdade.

Odontologia

Toma anticoagulante? Tem problema de coração ou usa prótese valvar? Já teve reação a anestesia? Range os dentes à noite? Sangra a gengiva ao escovar? Faz uso de bifosfonato, que é um remédio comum para osteoporose e interfere direto em extração?

Estética e harmonização orofacial

Está grávida ou amamentando? Tem doença autoimune? Usa isotretinoína, aquele remédio forte para acne, agora ou usou nos últimos seis meses? Já fez preenchimento antes, com qual produto e há quanto tempo? Tem tendência a queloide, que é aquela cicatriz que cresce demais? Toma anticoagulante?

Fisioterapia

Já fez cirurgia na região? Tem prótese, placa ou pino? Sente formigamento ou perda de força? A dor irradia para algum lugar? Pratica alguma atividade física e qual?

Nutrição

Como é um dia normal de alimentação? Tem intolerância ou alergia? Usa suplemento? Como está o intestino? Já fez dieta antes e o que aconteceu? Quantas horas dorme?

Psicologia

Já fez terapia antes? Faz uso de medicação psiquiátrica? Como está o sono e o apetite? Tem rede de apoio? Existe histórico de saúde mental na família?

Pergunta de remédio precisa ser feita de três jeitos: "toma algum remédio?", depois "usa alguma vitamina ou suplemento?", depois "toma algum chá ou remédio natural?". Muita gente responde não na primeira e sim na terceira.

5 erros que aparecem na prática

Deixar o paciente preencher sozinho e não conferir

Formulário de sala de espera economiza tempo, mas paciente marca "não" em tudo para acabar logo. Passe os olhos e pergunte de novo os pontos críticos.

Aceitar a primeira resposta sobre medicamento

Já falei acima e repito porque é o erro que mais dá problema. Ninguém lembra de tudo de primeira.

Anotar diagnóstico no lugar da fala do paciente

Anamnese é o que a pessoa contou. Sua interpretação entra depois, em outro campo.

Não atualizar

Anamnese de dois anos atrás não vale para o procedimento de hoje. A pessoa pode ter começado um remédio novo. Reveja a cada retorno, nem que seja para confirmar que nada mudou.

Não colher assinatura

Ficha sem assinatura tem valor bem menor se algo for questionado depois. Assinatura digital resolve isso sem impressora.

Papel ou digital: o que muda de verdade

Ficha de papel funciona. O problema aparece depois.

PapelDigital
Preencherrápido, todo mundo saberápido, e o paciente pode preencher de casa
Achar depoisdepende do arquivo estar organizadobusca por nome em segundos
Letra ilegívelacontece toda horanão existe
Perdermolha, rasga, some na mudançafica em nuvem, com cópia
Assinaturaprecisa imprimirassinatura digital, com validade jurídica
LGPDarmário trancado, e olhe láacesso controlado e registrado

O ponto que costuma decidir é o tempo. Enviar a ficha por WhatsApp antes da consulta faz o paciente chegar com tudo preenchido, e você usa o horário dele para atender em vez de para escrever.

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Montando o modelo da sua clínica

Não copie modelo pronto da internet e use como está. Ele foi feito para outra realidade e vai ter campo que você nunca preenche e faltar o campo que você mais precisa.

Um caminho que funciona:

  1. Pegue os últimos vinte atendimentos e liste o que você perguntou em todos
  2. Marque quais perguntas mudaram a sua conduta em algum momento
  3. Essas são obrigatórias, o resto é opcional
  4. Separe por bloco, seguindo as seis partes
  5. Deixe um campo aberto no fim para observação livre
  6. Teste em dez pacientes e ajuste

Modelo bom é o que você consegue preencher em cinco minutos sem pular nada.

O que a lei exige

Três coisas para não errar.

Guarda por 20 anos. O Conselho Federal de Medicina e o Conselho Federal de Odontologia exigem que o prontuário, incluindo a anamnese, fique guardado por no mínimo 20 anos a partir do último atendimento. Em papel isso é um problema de espaço. Em nuvem não é.

LGPD. Dado de saúde é classificado como dado pessoal sensível, que é a categoria mais protegida da lei. Na prática isso quer dizer: você precisa de consentimento do paciente, precisa controlar quem da equipe acessa o quê, e precisa conseguir apagar os dados se a pessoa pedir.

Assinatura. A ficha precisa estar assinada pelo paciente. Assinatura eletrônica tem validade jurídica no Brasil desde a MP 2.200-2, de 2001, desde que dê para comprovar quem assinou e quando.

Perguntas frequentes

Quanto tempo leva para fazer uma anamnese?

Entre 10 e 20 minutos na primeira consulta, dependendo da especialidade e da complexidade do caso. Nos retornos, 5 minutos costumam bastar para atualizar. Se o paciente preenche a ficha antes de chegar, esse tempo cai bastante e você usa a consulta para conversar sobre o que realmente importa.

Preciso refazer a anamnese em toda consulta?

Não precisa refazer do zero, mas precisa atualizar. Em cada retorno, confirme se mudou algum remédio, se apareceu alguma doença nova e se a queixa mudou. Antes de qualquer procedimento invasivo, revise a ficha inteira.

Qual a diferença entre anamnese e prontuário?

A anamnese é a coleta do histórico do paciente, feita na conversa inicial. O prontuário é o conjunto de todos os registros daquele paciente, incluindo a anamnese, a evolução de cada atendimento, exames, receitas e imagens. A anamnese é a primeira parte do prontuário.

Ficha de anamnese digital tem validade jurídica?

Tem, desde que seja possível identificar quem assinou e quando. A assinatura eletrônica é válida no Brasil pela MP 2.200-2 de 2001. Na prática, sistemas de gestão registram data, hora e identificação de quem preencheu, o que dá mais rastreabilidade do que uma ficha de papel.

Por quanto tempo preciso guardar a anamnese do paciente?

No mínimo 20 anos a partir do último atendimento, conforme resoluções do CFM e do CFO. Depois desse prazo o prontuário pode ser descartado ou arquivado de forma definitiva. Guardar em nuvem resolve o problema de espaço físico e de deterioração do papel.

O paciente pode preencher a anamnese sozinho?

Pode, e isso economiza tempo de consulta. Mas o profissional precisa revisar junto com o paciente antes do atendimento, principalmente as perguntas sobre medicamentos, alergias e doenças. É comum o paciente marcar não em tudo para terminar rápido.

Existe modelo de anamnese que serve para todas as especialidades?

A estrutura serve: identificação, queixa principal, história da queixa, histórico de saúde, histórico familiar e hábitos de vida. As perguntas específicas mudam. Um dentista precisa perguntar sobre bruxismo e sangramento gengival, um esteticista precisa perguntar sobre gravidez e uso de isotretinoína.

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Por onde começar

Se você ainda usa papel, o primeiro passo não é comprar sistema. É revisar as suas perguntas e cortar o que não muda a sua conduta. Ficha enxuta e bem preenchida vale mais que ficha longa preenchida pela metade.

Depois disso, digitalizar resolve os três problemas que sobram: achar a ficha na hora, guardar pelos 20 anos exigidos e ter assinatura com validade.

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